Durante muitos anos eu passei as férias escolares na casa dos meus avós. Eu brincava na rua, eu sujava meus pés, tomava banho de chuva e brincava de tacar lama, eu me machucava por correr tanto, eu fazia novos amigos, eu chorava quando era hora de entrar em casa e quando as férias estavam no fim, eu começava a sofrer me lembrando que teria que voltar para a casa dos meus pais, eu pedia, implorava pra me deixarem ficar lá, junto com os meus avós. Não era a presença deles que eu queria tanto, o que eu desejava tanto era a liberdade de poder brincar na rua, sujar meus pés, tomar banho de chuva, era aquilo. Eu passava os dias brincando com os meus amigos, que eram os filhos dos amigos da minha mãe, que eram filhos dos amigos da minha avó. Aos poucos, eu não sei bem o motivo, mas eu fui me afastando de tudo aquilo. A graça foi se perdendo e quando eu notei, ir pra casa dos meus avós era uma tortura.
Hoje em dia eu ainda vou pra lá, mas fico dentro de casa, sem fazer absolutamente nada. Tenho um primo pequeno, ele estava lá, junto comigo e com meus avós, ele queria brincar na rua e alguém deveria ir com ele pra cuidar de tudo, eu fui, era o que me restava. Sentei num banco e fiquei olhando, foi realmente muito estranho, era como se toda a minha infância tivesse passado correndo na minha frente, não percebi muitos detalhes, foi tão rápido, afinal. Aquilo me deixou um pouco chateada, não acho que eu tenha feito coisas grandiosas desde aquela época, não acho que eu tenha feito algo do que me orgulhar, pra me dar os parabéns. Tudo pareceu tão direfente e ao mesmo tempo, tão igual. Sensações estranhas, não nego. Senti uma vontade enorme de chorar, não me lembro bem, mas acho que não chorei e desde então, eu tenho me sentido realmente sensível as palavras direcionadas a mim.
Até chegar o dia em que tentamos ter demais vendendo fácil o que não tinha preço.