sábado, 28 de novembro de 2009

Cheguei em casa um pouco atrasada, meus pais estavam um pouco nervosos, mas nada demais, porque é até bem normal minha atitude de não cumprir horários. Chamaram-me pra conversar, na verdade, pra ouvir um monólogo, a única pessoa que falou ali foi o meu pai, um tanto broxante, sim.
Ele começou a falar sobre responsabilidades, sobre o meu futuro, sobre as minhas atitudes que ele julga como erradas. Acho que na segunda ou terceira frase que ele disse, eu comecei a chorar, foi bem estranho, eu não tenho o costume de chorar na frente dos outros, na verdade eu não choro na frente dos outros, é. Quando eu cheguei na minha casa, o meu desejo de chorar era enorme, não sei ao certo o por que, eu deveria me sentir bem, mas não era aquilo que estava acontecendo. Então, de forma bem inconsciente, eu esperava um motivo mínimo pra chorar e foram as palavras do meu pai que me fizeram desabar.
Sobre minha mãe, gosto de conversar com ela, mas não me sinto compreendida em nada do que falo. Aos poucos, não nego, fui deixando de contar muitas coisas. Todos os dias sinto vontade de falar sobre coisas que aconteceram comigo, mas paro pra pensar um pouco e consigo visualizar que são coisas que já passaram e que não acho muito legal contar. Na maioria do tempo com as pessoas que eu converso, eu quase não falo sobre mim, normalmente são as pessoas que falam sobre elas, sobre os seus problemas e pra ser sincera, é até bom pra mim, mesmo eu detestando ouvir os problemas alheios, é bom porque eu acabo desviando o olhar das minhas neuras pra abrir espaço pra entender outros problemas, que não me pertencem. Chego a esquecer um pouco de mim.
Eu tenho todos os motivos do mundo pra ser uma pessoa extremamente feliz e amável. Minha saúde é boa, meu corpo é normal, não tenho muitos defeitos físicos, tenho uma família unida, tenho uma casa, irmãos, um pai e uma mãe, que demonstram se amar. Já fiquei muito culpada pensando "Existem pessoas passando por situações tão ruins, morrendo em hospitais e mesmo assim, alegres. E eu, que não tenho grandes problemas, fico assim, totalmente depressiva", mas depois de um tempo eu me perdoei, eu me perdoei por toda essa dor.
Acho que uma das atitudes mais válidas é o perdão. Alguém pode fazer algo muito ruim pra mim, eu posso dizer que perdoei e voltar a falar com aquela pessoa, mas num momento de raiva, eu vou voltar a falar sobre a coisa ruim que a pessoa fez, isso não foi o perdão, isso foi fingir que perdoou. O perdão realmente é quando alguém erra comigo e eu consigo ficar perto dessa pessoa, sem me culpar, sem pensar "Nossa, essa pessoa me feriu e mesmo assim, estou com ela, olha como sou besta", é quando você não se culpa por ter aceitado o que aconteceu.
Acho que eu não sou muito perfeita no dom de perdoar, afinal o motivo de um dos meus maiores problemas é que eu não soube perdoar, não fui capaz de me perdoar. De vez em quando, em algumas situações, depois de muito tempo, eu até consigo. Mas na maioria eu continuo me culpando, sempre.

- Agora vou desligar, cansei de falar, quero me deitar na cama e chorar o resto do dia e da noite.
– Tudo bem, mas caso queira alguém pra ouvir você chorar o resto do dia e da noite, é só me ligar, não tenho nada de melhor pra fazer.

partes de mim.